Salame de Chocolate
Lembro-me sempre desta iguaria doce quando recordo festas de aniversário enquanto eramos crianças e, mesmo, quando já mais crescidotes. Fiquei triste quando, já adulto e nesta mania de querer saber as origens da comida, soube que não era uma especialidade portuguesa, mas italiana de Nápoles.
Salame ainda coberto
No receituário português a citação mais antiga que encontrei foi em O Livro de Pantagruel, de Berta Rosa Limpo, O Século, 1945 e cuja receita podem ler:

Receita em “O Livro de Pantagruel”
Encontrei outra receita em O Livro de Ouro da Doçaria, de Noémia Ferreira Ramos, Portucalense Editora, s/d, possivelmente dos anos 70 e que podem ler:

Receita em “O Livro de Ouro da Doçaria”
Lendo com atenção estas duas receitas reparamos logo na forma como são denominadas as receitas: a primeira como “Salame preto” e a segunda como “Salame de chocolate”. Depois na receita também temos variantes delicadas nos ingredientes: na primeira usa manteiga e bolachas «petit-beurre» na segunda pode substituir a manteiga pela margarina e a bolacha é a «maria». Ora o produto final poderá revelar-se diferente.
Haverá dezenas de receitas apenas com pequenas alterações. No meu Novo Dicionário da Cozinha Portuguesa, Marcador, 2025 apresenta a seguinte definição para “Salame de chocolate”: Faz-se uma massa consistente de chocolate com manteiga, açúcar e ovo, na qual se incorporam pedaços de bolacha maria. Tende-se em rolo, embrulha-se em papel de alumínio e serve-se cortado às rodelas.
Tentei encontrar salames de chocolate, que se vendem em algumas pastelarias e restaurantes, e todos usam bolacha maria. Num restaurante havia para acompanhar o café, salames de chocolate em miniatura. Eu ainda me lembro da delicadeza da bolacha «petit beurre» que ainda se encontram em algumas casas especializadas.
Salame inteiro já fatiado
Há poucos meses recebi diretamente de Itália um livro encantador com o título Pastiera, Sfugliatella, Babbà e tutto ò ddoce è ‘sta città, de Lejla Mancusi Sorrentino, Edizioni Intra Moenia, Nápoles, 2025.O objetivo do livro é constar um pouco a história da doçaria napolitana, e encontro a receita do “Salame de cioccolato” que traduzi e simplifiquei, podendo ler-se:
Cacau amargo 100g; Açúcar 100g; Grãos de noz tostados 100g; Bolacha simples (macias ou «petis-beurre») 400g; Manteiga 100g; Ovos 3; Copinho de brandy; Chávena de café forte
Montar a manteiga com o açúcar e as gemas de ovo, o café, o brandy, o cacau, os grãos de noz, a bolacha partida grosseiramente e por fim as claras em castelo firmes. Amassar tudo bem até obter uma uniforme, e moldar em forma de um salame e envolver em folha papel de alumínio. Deixar várias horas no frigorífico. Quando for servir, retirar a folha de alumínio e colocar uma cobertura de chocolate. Cortar em fatias finas.

Capa do livro "Pastiera..."
Surge no Pequeno Dicionário da Gula, de Márcia Algranti, Editora Record, Rio de Janeiro, 2004, a seguinte definição para Salame de Chocolate: “guloseima que faz alusão ao verdadeiro salame, de forma cilíndrica, elaborado com chocolate, biscoitos do tipo maisena ou maria e servido cortado às rodelas.
Também, no Dicionário de Gastronomia, de Myrna Corrêa, Matrix Editora, São Paulo, 2016, o seguinte para Salame de Chocolate: “(port.). Doce feito com chocolate, manteiga, açúcar e bolachas de maisena, cilíndrico e com aparência de um salame.”
O salame que veem nas fotos foi confecionado pela minha amiga Carmo Brito e que o serve no seu restaurante Refúgio dos Sabores.
Bom Apetite!
© Virgílio Nogueiro Gomes