25 é de Maracatu

 

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Continuando a escrever sobre maracatus no seu dia 25. É festa em Fortaleza! E festa renovada na qual se nota uma constante evolução criando uma inovação que parece completamente integrada na tradição. Curioso é observar que as palavras de Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileira, de 1954 e com edições atuais, ainda se possa ler curiosamente, fixou-se inicialmente na zona do Recife, e agora aparece em Fortaleza, Ceará, com força de novidade poderosa. .... Parece o maracatu condenado à morte por ausência de renovação. Ora em Fortaleza sente-se o inverso. Mas parece-me que quanto mais se conhecer a sua origem e tradição, mais se garantirá o seu futuro. O futuro não se deve precipitar. A evolução deve ser gradual e com entendimento. A evolução não se deve compadecer das modas. É que muitas desaparecem rapidamente. A evolução é o reflexo de uma dinâmica consciente e arreigada ao passado. É bom não esquecer que sem passado não há futuro. Por isso defendo a informação dentro dos grupos de forma a que todos os brincantes conheçam a história do maracatu com as suas origens, e depois entendam ala em que participam ou se apresentam, e é sempre bom conhecer também as estórias do seu grupo.

 

 

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O mundo tem vindo a demonstrar que as tradições de origem religiosa são as que mais perduram. Ora esta origem do maracatu, por vezes mal explicada, é que tem vindo a garantir a sua perenidade. Inclusive com a introdução de novas e reconhecidas presenças de índole religioso. Se na sua origem tem aspetos de verdadeira assunção religiosa de matriz africana, depois evidenciam o candomblé e posteriormente a indiscutível presença de umbanda, tão brasileira. Também surgem presenças de entidades ou figurações da religião católica. Curiosamente nunca vi a presença do Padre António Vieira que tanto lutou pela igualdade de índios e africanos, considerando que também tinham alma e, por isso, perseguido pela Inquisição.

 

 

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Voltando a Câmara Cascudo, firma que Perdida a tradição sagrada, o grupo convergiu para o Carnaval, conservando elementos distintos de qualquer outro cordão da espécie. Certo que a maioria dos brincantes não lhe atribua o sentido religioso que terá tido no passado, nem os brincantes professam todos as religiões oriundas de África. Mas vejamos, a espiritualidade do maracatu começa com Calunga, essa divindade pouco estudada ou reverenciada no Brasil. Mas a sua presença é obrigatória no maracatu. Segundo Ana Cláudia Rodrigues, a calunga, em alguns maracatus fortalezenses, representa a ligação religiosa com a religião afro-brasileira. Depois a ala de orixás, sempre com tanta visibilidade, e orixás entrando em tantas loas. Presença marcante, e possivelmente mais recente, é a ala de terreiros e, esta sim, com elementos que professam as religiões de candomblé e umbanda.

 

 

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As religiões africanas terão começado pelo respeito e adoração ás forças da Natureza, depois divinizadas e só mais tardiamente atribuídas formas humanizadas. Uma religião baseada nas energias da Natureza. Gilmar de Carvalho, no livro “Música de Fortaleza”, 2016, é muito claro quanto a este assunto: A batida plangente evoca nossas raízes africanas e dá ao cortejo a dimensão ritual. O que significa que, apesar da sua integração no Carnaval, não perdeu a sua origem e desfila como se de um ritual se tratasse. E continua escrevendo que ... o maracatu é uma maldição que ressurge como festa nesse carnaval de subversão e transgressão. ... Os maracatus são permanência e atualizações dos cortejos das irmandades dos africanos, dentro das igrejas católicas, na ideia de sincretismo das forças da natureza (orixás), com os santos. Nessa saudável confusão multicultural está nossa gênese. E mais importante ainda é o reconhecimento do encontro: A mistura entre negros e índios que o maracatu leva às ruas pode ter sido forjada nas casas de culto, no areal, ganha visibilidade na festa popular e dá o tom único aos nossos maracatus. Mais uma achega para a evolução do maracatu e por isso também garantem a continuidade.

 

 

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Também Janote Pires Marques, no livro “Festas de Negros em Fortaleza, 2009, vem constatar que pela necessidade de afirmação e lutar por liberdade de expressão, ... perceba-se uma forte tendência em se colocar na rua representações de Orixás e de se realçar o sagrado através da festa que é o desfile anual dos maracatus. São, portanto, evidências da presença ou apresentação de símbolos religiosos nos desfiles de maracatu. E o facto de vermos a introdução de outros elementos de cariz religioso como novos beatos e santos, ou uma ala de anjos, é uma fórmula de garantir o novo entendimento e a segurança dos maracatus. Razões culturais que justificam, muito, a classificação dos Maracatus Cearenses, ou apenas os de Fortaleza como Património Imaterial. E, uma vez mais, o meu pequeno pedido para a criação de um Memorial do Maracatu.

 

 

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© Virgílio Nogueiro Gomes